Culminou com a picagem das mós a fase de recolha e registo de conteúdos para a inscrição das manifestações de saber-fazer do Moinho do Outeiro (Azoia) no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial (IMC). Este processo conta com a colaboração de Luís Rocha (proprietário e moleiro) e de seu pai José Rocha (moleiro).
A picagem das mós é uma tarefa tradicionalmente exclusiva de moleiros, considerando o grau de experiência requerido e a responsabilidade inerente ao trabalho com peças de custos elevados como é o caso de um casal de mós.
Um casal de mós é composto pelo “poiso” (mó de baixo) e pela “andadeira” (mó de cima). Os casais de mós foram produzidos, ao longo do tempo, com tamanhos diferentes, a que correspondiam diferentes usos, consoante o engenho, e também distintas velocidades ideais de funcionamento. Conheceram maior sucesso as mós de 120 cms de diâmetro que obtinham melhores resultados funcionando próximo das 122 rotações por minuto.
O funcionamento destas peças, fulcrais no sistema de moagem, é causador do seu desgaste, motivo pelo qual era requerida a sua manutenção: a picagem. A este propósito, é de referir que existem diferenças quanto à qualidade das peças. Assim, por exemplo, as mós designadas de “francesas”, construídas com materiais de grande dureza, de que é exemplo o quartzo de água doce, podiam ser utilizadas na produção de muito mais sacas de farinha do que as mós feitas de material pétreo mais brando, como é o calcário, que podiam necessitar de ser picadas ao fim de meia centena de sacas.
A picagem das mós consiste na actividade de imprimir às suas faces, canais, sulcos e estrias simétricas e com forma específica que, numa primeira fase da moagem, permitam esmagar e triturar os grãos de cereal, na área da mó que se designa de “esmagadouro” e, numa segunda fase, já próximo da beira da peça, permitam desfazer o cereal já partido na desejada farinha.
A face do “poiso” é sempre ligeiramente convexa, correspondendo à concavidade da face da “andadeira” e é a esta harmonia que se chama o “casamento”. Esta forma destina-se a conduzir o cereal em moagem para a parte exterior do casal, ou seja, do “olho” (centro da mó) para a “beira” (parte exterior). A expressão correcta é “do olho à beira”. Respeitando estes preceitos, para picar uma mó utilizam-se instrumentos específicos: uma “bujarda” (ferramenta de canteiro), uma “picadeira” ou um “picão” encabados, uma régua grossa e sem empenos de qualquer espécie, um “graminho”, ferramenta de carpintaria que serve de “bitola de riscar” e outras específicas do ofício de moleiro.

A mó andadeira é removida. Luís e José Marques Rocha avaliam o estado da superfície da mó andadeira (francesa).

Detalhe da superfície da mó andadeira.

Avaliação da convexidade do poiso.

Avaliação da concavidade da andadeira.

Enquanto a mó andadeira é limpa, o poiso é bujardado.

Luís Rocha utiliza um picão com ponta revestida a pó de diamante para picar a área de esmagadouro da andadeira.

Picadeira e vassourinha, bens móveis associados à manifestação do saber-fazer da arte de moleiro.